Creche Parental: um Quintal possível e como isso tem se dado na nossa prática.

Faz mais de mês que Nico começou a frequentar novos espaços para além da casa, da rua, dos nossos braços.
Passada as primeiras semanas, de adaptação e desespero, posso olhar esse processo com mais calma e arriscar as primeiras palavras sobre. Quem quer ouvir? Chega mais!

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Sempre fui dessas pessoas que os olhos brilham ao falar de educação. De outras formas de escola, de espaço, de cuidado. Veio o filho e isso se tornou mais “concreto” em mim, mais forte e mais urgente. Surgiu a vontade de uma creche parental (ver o primeiro post sobre o assunto aqui), li um pouco, conheci lugares, busquei famílias. Mas gente, a coisa não é fácil não: é difícil se conectar como comunidade, é difícil se engajar de fato, se abrir para além das individualidades, e fazer mais que pagar a conta da escola. E não digo isso como quem aponta o dedo na cara do coleguinha, Estou falando das minhas dificuldades mesmo.

Até que aconteceu, quando mais precisávamos (eu já tinha voltado a trabalhar e a rotina estava pesada demais): apareceu um Quintal com vaga aqui perto de casa, 4h por dia, 5 dias por semana – como queríamos, como precisávamos. [Na minha cabeça, buscava uma creche parental no estilo em que as famílias se revezam no cuidado das crias (com ou sem a ajuda de uma educadora). Algo em que a relação é ainda mais intensa, mais intima. Não rolou, e o possível é o nosso melhor].

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O Quintal já tinha um grupo formado e duas educadoras. Os pais não estão todos os dias cuidando das crianças (por conta disso, alguns dirão que isso não se configura como Creche Parental). Vão quando precisam e fazem todo o restante das demandas que um espaço de cuidado infantil precisa: cuidam da limpeza, arrumação, guardam os brinquedos, lavam a louça do dia. Fazem a contabilidade, lavam os panos e tecidos. Planejam e levam o lanche, pensam em eventos, atividades extras. Compram produtos de limpeza, materiais para atividades, brinquedos. Realizam os pequenos reparos na estrutura do local… ou seja, tudo aquilo que nos passa despercebido ao primeiro olhar, todas aquelas mil coisas que em uma creche normal você acha que se dão por passe de mágica? Em uma creche parental essas coisas são discutidas e resolvidas pelas próprias famílias. É preciso colocar a mão na massa.

Há muitas vantagens nesse modelo de cuidado infantil – tanto que optamos por ele, né?. Há uma maior participação no cotidiano das crias (mesmo que nem tão direta no nosso caso, já que não passamos o período com as crianças), um menor custo financeiro, uma ativa formação de rede e de senso de comunidade… Mas nada tem apenas lados bons. Todo esse engajamento dá trabalho, custa tempo, neurônios, afeto. Nem todo mundo está disposto (não há um julgamento de moral aqui. é preciso saber o que é bom para cada família). Nem todo mundo pode. Nem todas as famílias que querem se adaptam.

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Famílias limpando o espaço no fim do dia.

No caso do Quintal que fazemos parte as questões são menores do que nos espaços onde os pais também estão envolvidos no papel de educadores (surgem mil inquietações, a adaptação é mais lenta, o engajamento precisa ser maior, os vínculos são mais fortes. Eu mesma que tanto queria assim, hoje, já não sei se teria dado conta). Só que o simples fato de estar presente, envolvido no cuidado do espaço que cuida dos nossos filhos é rico, empoderador e transformador.

Quando vou buscá-lo e arrumo os brinquedos, varro o chão, lavo a louça do lanche. Faço isso com meu filho (no colo ou segurando a barra da minha roupa). Não há nada mais que importe no processo educativo que a vivência; e nesse momento estou proporcionando isso: viver o cuidado do espaço, subir comigo na escadinha para lavar a louça. A louça que não é só minha ou só dele. A louça que é nossa, que é de todos. Não importa quem sujou, não importa quem comeu.

 

Seria mais fácil apenas buscá-lo no portão e levá-lo para casa. Ler na agenda as anotações diárias e olhar com uma cara de desdém quando as coisas não saem como o meu ideal materno sonha. Para formar Quintal é preciso estar disposto. E estar aberto ao outro. ao tempo. à troca. à conversa. à se responsabilizar.

[Isso basta? É só querer? É só se abrir? Como é possível, então?
Papo para outro dia. Até lá].

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