Criar filho é doce, mas não é mole não.

Me pergunto por que estou tão cansada. Afinal, eu SÓ cuido de um bebê, né não?

Então me lembro. vou recordando o dia, fiando as últimas horas:

os 25 minutos que gasto para trocar uma fralda, o cansaço emocional que é tentar fazer isso sem ser violenta, respeitando o tempo e o corpo da criança. O chão de xixi que eu limpo nesse meio tempo. Vestir a calça, os sapatos, explicar que não vamos andar de bicicleta na rua, convencer a subir no carrinho. Depois invento músicas, nomeio o mundo por onde passamos, Nico aponta cada coisa. A ida ao mercado que demoraria de 15 à 30 minutos sozinha, leva 1 hora e tanta. Nico chora, não gosta de ter que esperar: dou comida, converso, explico, peço paciência, deixo que ajude e faço acordos. Como combinado paramos no parquinho na volta, meia horinha. Corro atrás, dou a mão, peço para ter atenção, explico que não pode sair para a rua, corro mais. Negocio a hora de ir embora, vou avisando bem antes, várias vezes. Voltamos renomeando o mundo, Nico canta em sua própria língua. Em casa, arrumamos as compras, Nico lancha. Negociamos a comida – não se pode viver só de queijo. Deixo ele me ajudar a guardar as farinhas em seus potes, a aveia, os grãos. O que demoraria 10 minutos leva uma hora e muita sujeira. O chão está impisável. Pegamos a vassoura, eu a grande, ele a pequenina. Varremos. Não fica limpo, claro. Nico espalha a sujeira com as mãos, come pedaços. Depois vamos fazer pão, ele quer colocar tudo e apertar os botões. Traz os livros. Os brinquedos. E cantamos algumas canções inventadas sobre cada um dos animais. Depois o jantar. Nico só quer os tomates. Me controlo para não forçar a barra. Ofereço outra coisa, misturo, faço graça, invento brincadeiras. No fim não quis comer nenhum dos 15 tipos diferentes de alimentos que proporciono pra sua dieta balanceada. Pede chá (de camomila), bebe um pouco o resto joga pela casa. Tentamos guardar os brinquedos, anuncio a hora do banho. Não quer vir, está tirando tudo do armário da cozinha. Proponho que traga alguns potinhos. O banho leva 40 minutos. Mas não de relaxamento, são 40 minutos pisando em brinquedos, lutando para conseguir lavar os cabelos e o bumbum. Invento uma história para escovar os dentes, escovamos juntos um mamute, Nico quer nem saber e grita. Depois o choro para sair pois não gosta da toalha. O choro para vestir a roupa. 15 minutos negociando uma camiseta – fica feliz pois tem motos estampadas. Mais 15 para vestir a fralda (nesse ponto rolou chantagem já). Daí até dormir foi mais uma hora, entre brincadeiras, livrinhos, mamadas e chutes na minha cara.

Cuidar de uma criança não diz só de todas as tarefas de cuidado, objetivas que se faz. Diz do trabalho mental, de fazê-las com respeito. Diz da paciência constante, da negociação incessante, da invenção e da graça.

Criança tem uma energia infinita. Sobe nas cadeiras, pula do sofá, joga tudo no chão. Explora o mundo com as mãos. Deixa a vida de pernas pro ar. Às vezes me falta fôlego para acompanhar. Nesse processo cogito os meios padrões: a tevê, o “chiqueirinho”, o berço, o celular. E me recordo que nada disso diz sobre a liberdade que acredito para o mundo: eu crio um filho, não porcos!

Estou cansada sim. Mas hoje feliz pela certeza de estar fazendo tudo como acredito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s