Viver é como levar caixote.

Sempre bate uma culpa. Aquela sensação de não tô fazendo essa porra direito. Acredito que todo mundo sinta isso. Eu, por exemplo, sempre senti. Desde que me entendo por gente, lá pelos meus 5 anos de idade.

Tem sido difícil desde o dia que descobri você aqui dentro. Quer dizer, mais difícil. Que a cobrança começou a pensar em dobro. Lembro que diziam que grávida precisava comer por dois. E eu, ah caramba, não queria comer nem por um. Vomitava tudo que engolia. Fiz de tudo. Chupei gelo. Tomei remédios fortes. Toda sorte de simpatia.

Emagreci tanto. Me olhava no espelho tão pequena, tão pouco parecida com as mulheres parideiras do meu imaginário e me perguntava como eu seria capaz.

Eu, aquela que chorava de dor por cólica menstrual. Que não aguentava uma dorzinha de cabeça. Que andava sempre com um Doril na bolsa, vai que né. Que quase desmaiava nos dias de calor. Que a pressão caia. Tão fraquinha, ela, coitada.
Pesava em mim uma culpa por não suportar as dores de uma gravidez, de boas. gravidez não é doença porra. (mas confesso que teve horas que suspeitei que fosse) Me doía ver mulheres com barrigas enormes, 8, 9 meses, trabalhando o dia todo, sem regalias. Eu sem me aguentar em mim.
Quase todos os dias, hoje ainda, sinto como se meu corpo não fosse pra isso. Pra ser mulher, parideira, forte. Sabe, “Mulher”? Que cuida das casa com esmero, dos filhos bem arrumados, engoma camisa, cozinha, ama o marido? É que sou feminista. acho, ainda, que tenho que trabalhar fora, transar muito, encontrar paixões arrebatadoras e educar meu filho de forma autônoma. Abaixo a cabeça chateada, o peso da incapacidade. perante esses modelos todos que inventei. imaginários.
Depois vem uma luz. Me salva.
Lembro de quando meu filho nasceu. Senti muito dor, não soube passar pelas contratações de peito aberto. Era como levar caixote na praia. Levantar e levar outro. Por 9 horas seguidas. Em nenhum momento eu – frágil, que ando sempre com um remedinho, que choro de dor, que grito por picada de mosquito – desisti. Não me passou pela cabeça pedir remédio algum.
A vida segue toda como aquela manhã.
É sempre muito difícil. Dói. Viver. Existir. Estar aqui. Mas vou em frente.
(E quando olho pra trás vejo que fui tudo menos fraca , incapaz, culpada. Eu tenho sido forte. Muito forte).
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