“Florzinha” não. Eu quero é respeito!

Vivemos um mundo que não está acostumado a cuidar. De si ou dos outros. Não sabemos como faz é saímos desembestado fazendo merda. Só pode ser.

Achamos que tratar bem é dizer “minha flor”, “querido”, “amigo”. Mandar emoticons de coração e bichinhos.

Tô aqui pra te contar que cuidar não tem nada a ver com o tom doce e falso dá sua voz. que respeito não se expressa pela sua intonação forçada, o seu bom dia entre dentes. Cuidar tem a ver com importasse com as necessidades do outro. Verdadeiramente. Enxerga-las, leva-las em consideração. Perguntar se tá difícil, se dá pra ser assim, se não prefere assado.

Não. Eu também não mando bem nessa parte. Nem sempre enxergo as necessidades daqueles que mais amo, nem sempre pergunto como estão. Muito pela minha vontade exaustiva de fazer o melhor – o que eu acho o melhor (loka controladora).

Estas relações pessoais, íntimas de cada um, não são de fato o problema. Agente lida na análise, nos livros de auto ajuda, nos papos com as amigas. Estou aqui para falar de outro tipo. Dos profissionais ditos “do cuidado”.

Segue relato desta manhã:

Hoje levamos minha vó pra fazer exames numa clinica aqui perto. Liguei e fui na clínica três vezes nos dias anteriores. Expliquei detalhadamente a situação para profissionais diferentes. Que ela não estava andando. Ficava deitada o dia todo. Não podia fazer esforço. Que estava com pneumonia. Que não poderia esperar muito. Que sairia de casa com esforço, que as recomendações médicas eram tais é tais. Que o táxi adaptado que conseguimos depois de semanas pra fazer o trajeto só poderia ficar até às 11h.
Me garantiram que daria tempo se chegassemos antes das 9h. Que acabaria as 10h30, dependendo do médico que chegava atrasado (afinal, todo mundo aceita atrasado de médico, doutores supremos na hierarquia social).

8h40 já estávamos na clínica. Do lado de fora que a cadeira de rodas mal passava pela porta. 9h20 e ninguém tinha nos atendido. Minha vó já estava passando mal, enjoada do trajeto, nervossisima com os procedimentos, angustiada com a espera.
Na sala do primeiro exame não cabiamos na sala. Tiramos as cadeiras e viramos a mesa pra poder tentar colocar la na maca. Ali descobrimos que não tinha ninguém pra ajudar. A maca era super alta, não regulava e nós não tínhamos nenhuma experiência em fazer aquilo. Minha vó tem todo o lado direito do corpo quebrado e não pode fazer força. Só havia uma única enfermeira , que realizaria o exame, na clínica toda.
Fomos para a sala do raio x. Já mais experientes e confiantes. Minha vó ficou sozinha lá por uma hora. Não compreendiamos o porque da demora. Até que a radiologista – que tinha chegado 40 minutos atrasada – veio pedir sem graça pra alguém entrar pra fazer companhia. Ela não conseguia fazer o exame no tórax, pois minha vó tem um problema na coluna. E estava repetindo várias vezes o que demandava muito, muito tempo. Ela não pediu ajuda, não avisou, não nada.
Minha vó estava esgotada nesse ponto. Fez muito esforço pra ficar sentada sem apoio na mesa de raio x. Sozinha. Bebeu água de coco e quase adormeceu na cadeira, enquanto esperávamos o médico para fazer o último exame. Veio a enfermeira. Expliquei a situação, disse que eu considerava aquilo um descaso. Que perderíamos o táxi para voltar pra casa, pois já havia passado mais hora do tempo previsto. Que se eles não tinham condições de atendê-la que tivessem me avisado antes. Me respondeu com a voz doce, cheia de vocativoa bonitos. Disse que o táxi não era responsabilidade deles. Que é assim mesmo. Que vai dando “jeitinho”, que eu devia estar contente pois o que eu vim fazer ali ela estava conseguindo proporcionar: a realização dos exames. Mas a que custo, perguntei? Minha vó, anêmica, desidrata, com uma pneumonia que não passava. Uma hora com frio na sala do raio x. Minha vó, tão debilitada, que fez um esforço descomunal. A enfermeira, ignorou, simplesmente virou a cara e atendeu o telefone que tocava. Ignorando que existia uma recepcionista no lugar. Sem nem mesmo dizer “licença”.

Ninguém me pediu desculpas. Ninguém nos deu explicações. Apenas repetiam frases fofas pra minha vó, e diziam com uma alegria falsa para comemorarmos o “passeio”, a maciez da última maca.

Sei que relato coisas poucas. Há absurdos tão maiores. Já vivemos tantos outros – nas idas familiares aos hospitais – tão mais graves (que ouso dizer, levaram à morte do meu avô). Estou cansada de lidar com médicos e enfermeiras que não se importam. De ser trata como se não importasse. De ver os meus tratados com total descaso.

Olha, eu juro que entendo muito do porquê que os profissionais agem dessa forma. Do cansaço deles. Das condições de trabalho. Mal pagos. Chateados. Dia ruim. O que for. Mas não. Eu não acho que isso devia ser normal. Não acho que devíamos aceitar e falar “ahh, profissionais ruins, única clínica aqui, fazer o quê, deixa quieto”. Não, a gente não deve aceitar que as coisas sejam feitas com “jeitinho”, em clínicas mal estruturadas, sem acessibilidade (o que, ops, é lei, né). A gente não devia pagar por isso (o relato é de uma clínica particular da rede Serra Med).

E se eu ouvir um “florzinha” de novo vou logo mandar à merda. porra.

Anúncios

2 comentários sobre ““Florzinha” não. Eu quero é respeito!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s