Ah, devem ser os mosquitos.

Há aqui dentro qualquer coisa que não sei o nome. entope as vias – fisiológica mesmo, e as energéticas também. impede da vida fluir. É como ter algo preso entre a garganta e o coração, querer gritar aos sete ventos e não sair som. A metáfora da pêra na garganta funciona bem.

Chamam isso de angústia. Me parece um nome bobo demais pra algo tão presente, tão parceiro, tão intenso, amiga-antiga-de-todas-as-horas. boas e ruins. Convivo com ela desde que me entendo por gente. Me acompanha na cama, nos sonhos, na hora de comer, em todos os meus relacionamentos: com a tia da escola, os colegas de classe, mãe, pai, irmãos, os namorados todos – claro – e agora com meu filho. Nos embolamos. Ela grita aqui dentro, eu grito ae fora. Sempre na hora e com a pessoa errada. Me faz parecer uma louca. Madrugadas insones. Madrugadas produtivas. Dias deitados na cama, com medo, com sono, com dor. A cada dois minutos ela fala, nem para, pergunta o quê que eu tô fazendo da minha vida, me cobra resultados absurdos, me lembra de quando eu era pequena, do que meu avô me disse, que não era pra ter filho antes de um bom emprego, e que tenho que ser uma mãe muito bacana, porque a maternidade é uma benção, uma dádiva, que vai salvar o mundo e a minha vida, algo importante pras coisas melhorarem, e pra isso tem que criar com amor, sabe, muito respeito, muita paciência, não pode gritar, não pode parecer insegura, porra, vira gente. Amanhã é outro dia. vai no mercado, compra orgânicos, não esquece de algo pro jantar, tem que ter cinco cores, no mínimo. E ir trocar a privada do banheiro, não acredito que tem dois meses que está assim, muita ineficiência mesmo. Talvez fazer uma prateleira aqui no quarto, com gavetas velhas. colar tecido colorido no fundo, tem um azul tão lindo que parecem escamas de sereia. Ah, e fazer um pão. de beterraba. onde foi que vi a receita? escrever pro meu irmão, perguntar se tá tudo bem, se viu o apartamento, como foi de Ano Novo. trocar o presentes.

Queria um botão de desligar.

Tem alguma coisa que incomoda muito. eu digo, ah, são esses mosquitos malditos que não me deixam dormir. a luz acessa. o calor. devo estar com fome.

Não dá pra ser nada assim. Não dá pra ser mãe. Nem amiga. Filha. Parceira. A vida é um peso impossível de carregar.

Não dá pra escrever esse texto. começar o dia. ou ser feliz.

 

 

Fico assim, em farrapos. pobre menina rica. escrevendo as mesmas coisas há mais de dez anos. minha única forma de grito sem dor.

 

 

 

 

obs: a imagem é: Angústia – Alinny Russini

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