O desembaçar do mundo.

Lembro de um dia ali no Caminho Niemeyer – tão perigoso -, um grupo de meninos me seguia. Perguntavam: tia, pra onde cê tá indo? Pra universidade e vocês? Iam pra praia e não sabiam direito o que era Universidade, mesmo que passassem pelos portões todos os dias. Convidei pra entrar e foram encantados comigo pelo gramado. O porteiro quando viu, veio gritando, mandou o bando de meninos embora que ali, Universidade Federal – pública, de todos, do povo – não era lugar de pivete.

Esse foi um dos tantos outros guardas, policiais, homens de bem, que me responsabilizaram contrariados do grande perigo que eu corria ao sentar num banco de praça e bater papo com aquelas crianças. ou melhor, do grande perigo que eu corria ao sentar em bancos de praça – lugares sempre tão perigosos, todo mundo sabe.

Mas eu continuava ali. Me colocando desprotegida. disponível.

Parava, olhava, conversava um pouco. Ouvia umas histórias sem sentido e oferecia o que eu tinha na bolsa: uma banana, um pacote de biscoitos já pela metade. Isso nada tem a ver com altruísmo, ser uma pessoa boa e santificável. Há  algo no abandono daqueles olhos, daqueles corpos que fala com o meu. Com o meu abandono. de menina, branca, olhos claros, livros debaixo do braço.

***

Dentre todos, o mais querido foi Jeová. Era meu vizinho de porta. Eu porta pra dentro, ele porta pra fora. 54 anos, tuberculoso e fazia retratos. Me dava presentes: balas – as minhas favoritas de menta e de amendoim -, desenhos, qualquer coisa que tinha encontrado no lixo. Eu lhe dava papéis, meus lápis velhos e alguns minutos quando entrava e saía de casa.

Então me mudei, fui morar em outra cidade, quase nunca via Jeová. Quando o encontrei ficou muito emocionado. Dizia Luciana, Luciana – que era assim que me chamava -, e quis saber da faculdade – que tanto se orgulhava deu ir. Eu já estava grávida nesse dia. Nem me lembro mais se contei para ele ou não. Tive certeza, naquela hora, que era provavelmente o último dos nossos encontros. Eu já não percorreria mais aquelas ruas. E sei lá por que fui me fechando em mim, em volta do meu ventre enquanto ele falava e segurava minha mão. Como se estar ali, parada na calçada fosse manchar a pureza da vida “perfeita” que eu carregava, ou sei lá o que. Dei tchau apressada e fui embora num misto de lágrimas e culpa.

***

A gestação foi um tempo em que fiquei encasulada. falava pouco. não tinha palavras em mim. não escrevia. não lia. não queria conversa. O mundo todo parecia um tanto nublado aos meus olhos. Eu só enxergava, aterrorizada, aquela coisa que crescia aqui dentro. Não fiz novos amigos, não dei ouvido aos pedidos da rua e comecei a sentir um medo enorme quando batiam na minha porta, pedindo roupas ou comida.

(nada disso tem a ver com se tornar uma pessoa babaca ou malvada. eu atendia, dava o que tinha na geladeira e umas roupas do armário do Matheus. tem a ver com disponibilidade).

***

Hoje, voltando do mercado, uma moça empurrava um carrinho de bebê. uma criança corria atrás dela. Me gritaram, pediram dinheiro. Não tinha, nunca tenho. Mas dessa vez parei pra responder. Me pediu roupas velhas. Mas meu filho é bem menor que seu – expliquei -, não serviriam. Disse que não havia problemas, que estava grávida, serviria pro próximo. Continuei o caminho, mas a mulher continuava gritando. informações de onde achá-la, onde entregar as roupas se não a achasse, seu nome, sua urgência.

Nesse momento desembaçou o mundo aos meu olhos. Alguma coisa naquela urgência também era minha.

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obs: Fotos @matheusrma

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