Cadê a alegria que tinha aqui?

Demorei muito tempo pra aceitar ajuda. (e confesso que ainda não aprendi a pedir).

Cuidamos do Nico, eu e Matheus, sozinhos por quase um ano. Admito: por escolha minha. Escolhi deixar meu emprego. Escolhi nem cogitar uma creche para o Nico e muito menos uma babá. Cuidar de um filho e de tudo que viesse com ele era MINHA obrigação. Não deixaria ninguém me tirar isso.

Por mais elitista que soe, essas escolhas não tinham a ver com restrições financeiras. Diziam apenas sobre minha vontade de acertar. Por achar que precisava dar conta de tudo. Da casa arrumada, da alimentação saudável, da introdução alimentar respeitosa, com BLW e orgânicos, da criação com apego, da amamentação em livre demanda, da cama compartilhada, da educação positiva. Sem televisão, muito passeio, muito parquinho, atividades lúdicas e pedagógicas. Uma lista infinita de livros sobre como criar filhos com respeito e amor.

Obviamente, a coisa desandou. Se acumularam cansaços e frustrações. A casa, também, nunca foi arrumada. O chão sempre sujo de alimentos que quase nunca eram orgânicos. A criação com apego veio cheio de “nãos”, de choros, de cansaço. Todos os dias a culpa me visitava. Vinha me cobrar a cama por fazer. Os sonhos esquecidos. O prazer de levar a vida.

Toda essa cobrança e culpa tornaram a vida bem pesada. Virei uma pessoa chata. Remoendo tarefas idiotas, correndo atrás do próprio rabo na busca infindável por essa perfeição materna. Incapaz de agradecer o que os dias me ofereciam de bom. Incapaz de enxergar o outro, suas necessidades e vontades.

***

Depois de muito grito, choro e vela, aceitei ajuda. A casa, agora, passa metade do dia limpa, meus dias não são mais uma caça pelo almoço, ninguém briga pra saber quem tira o lixo e eu posso ir pra terapia sem malabarismos na agenda familiar. As coisas são exatamente como deveriam ter sido desde sempre. Mas,

Essa culpa não me deixa. Vem me lembrar que hoje eu gritei com meu filho só porque eu me sentia exausta. Que briguei com o cara que tá aqui, sempre do meu lado, porque tô achando a vida difícil demais. Que me sinto cansada, mesmo podendo dormir um pouco mais, mesmo que o almoço já esteja pronto e a roupa lavada e estendida.

***

Tô precisando tanto descobrir como é que faz pra se cobrar menos. pra criticar menos. ver o copo mais cheio. o corpo mais pleno.
Tô tentando aqui, remexer bem fundo, pra vê se encontro aqueles meus lados, tão bonitos, que deixei de lado. a espontaneidade. certa leveza. um ar de menina. uma disposição pra virar o mundo de cabeça pra baixo.

Quem souber como, favor, com urgência, mandar uma carta, um telegrama, um sinal de fogo, qualquer coisa. Vai que numa dessas, eu aprendo, – e reinvento a vida, mais bonita.

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