Nebulosas adolescentes e outros dramas cotidianos.

Vai fazer uma semana que entrei nisso. De novo.

As coisas tem sido difíceis. Não se trata das noites mal dormidas, do cansaço com o Nico mamando tanto e incomodado com os dentinhos. Tem sido difícil levantar da cama de manhã, apesar de tudo e com tudo. Tenho travado grandes batalhas comigo mesma, a cada três minutos. E tenho perdido quase todas.

Me soa ridículo repetir esses mesmos espirais, aos 25 anos. Tão antigos. Tão conhecidos já.
– Garota, se liga! Você tem filho, tem uma vida pra cuidar. Sai dessa, que não há tempo para essas bobagens.
E essas bobagens sou eu. Que sinto o peito rasgando, como já senti inúmeras vezes. E do mundo, vejo o escuro e a dor.

Você pergunta por que. O que fizeram à mim. Acha que isso tudo tem tom dramático, demais. Pesado demais. E que eu não deveria ter o direito a sofrer.
– Sua mal agradecida.

Posso te explicar. Todos nós, seres humanos, temos pele. Órgão protetor. Protege do frio, do calor. Protege o corpo da gente. Protege das porradas. É reserva de nutrientes e de alta sensibilidade (por isso precisamos tocar-nos. a pele.)
Mas há gente que anda assim meio em carne viva (como eu). Aquilo que chega, sempre chega perto demais. E quando não vem doce nem macio, doi. muito.
Não há proteção.
O coração, o estômago e o fígado caem. Não sobra mais que pedaços.

Nem sempre, claro.
Às vezes vou lá e enfrento a vida mais de frente, sem tanta dureza.
Abro as janelas. Respiro o ar “puro” e poluído que há por aqui. Vou seguindo a canção.
Um, dois. Um, dois. Sempre em frente.
Até que caio.

Fazia tempo. (ou nem tanto assim). Mas não é mais tão constante. Já desacostumei de viver com o estômago na boca. Não tenho mais toda essa disposição pra sofrência que tinha aos 18 anos.
Agora tem o Nico. Seu sorriso gratuito, que desmancha nebulosas.
E recebo muita ajuda, é importante dizer. Nem sei como podem ainda estar aqui, tentando e tentando, me fazer mais leve. (agradeço, mesmo que nem de longe pareça. Agradeço, é que tô mesmo longe). 

Nessas horas, lembro um trecho do Abecedário do Deleuze.
Dizia que as pessoas que sentem doenças e dores demais – como chamam? as hipocondríacas – não são pessoas ruins ou fracas ou egoístas (sim, egoísta é uma boa palavra). São humildes. Tratam o mundo com seriedade demais. Acham tudo pesado e grandioso. Não se sentem dignas de carregarem esse fardo, essa dádiva, isso que chamamos de vida.
E rezo para que os meus entendam Deleuze. E vejam, em mim, mais do que a face egoísta que eu mesma só posso enxergar.

sim. vai passar. pois sempre passou.
Quando e como? não faço a mínima ideia.
Agora nesse momento exato parece totalmente absurdo sair daqui.O fato do dia do outro lado do vidro estar azul me soa como um desrespeito da natureza. é intransponível e incomunicável. 
por isso escrevo. única forma de esboçar pontes.

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5 comentários sobre “Nebulosas adolescentes e outros dramas cotidianos.

  1. raissacdeoliveira disse:

    Viver sem a proteção dessa pele que protege, mas também torna insensível, também tem seus pontos positivos, lindinha: essas coisas lindas que você escreve, essa possibilidade de se expressar da melhor forma para que os outros entendam como você se sente. Além disso, tem o poder de tocar essas pessoas… Eu que também vivo envolta nessas nebulosas constantemente agradeço por lampejo deleuziano que só você poderia me fazer enxergar! Quer dizer então que não sou tão egoísta e fraca por nem sempre enxergar o tal céu azul?

    Curtido por 1 pessoa

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